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A Cachoeira Farofa de cima e as vantagens de redutos pouco explorados

Foto do escritor: Dicas na Serra do CipóDicas na Serra do Cipó
Cachoeira da Farofa de Cima - Foto Júlio Code

Após um quadro grave de depressão, fui passar as férias de julho na Serra do Cipó, onde também havia arrumado um freelancer no comércio de grandes amigas. O ar, a calmaria, as pessoas, o verde e as águas me curaram (e a terapia também). Dali não saí mais (no momento estou distante por conta do meu bebê, mas conto os dias pra estar de volta). Abandonei emprego, faculdade e dali fiz minha morada. Me tornei grande amante do cipó e região e aproveitei cada cantinho com amor e carinho.


Abandonei emprego, faculdade e ali fiz minha morada. Me tornei grande amante do cipó e região e aproveitei cada cantinho com amor e carinho.



Raissa Dansa

Me chamo Raissa Dansa e pretendo vir aqui de vez em quando trazer relatos sobre esse lugar que amo, onde construí as melhores memórias da minha vida! Assim aproveito e mato a saudade, né?  Ao me tornar moradora efetiva, depois de conhecer todos os atrativos naturais mais frequentados do Parque Nacional da Serra do Cipó (Farofa, Cânion, Gavião e etc.), passei a querer mais. Descobrir quais seriam as novas aventuras, paisagens e quedas refrescantes nos quilômetros que se seguiam após os limites dos atrativos autoguiados passou a ser um objetivo. Descobri, inclusive, que estar nesses atrativos alternativos trazia algumas preciosas vantagens. Através dessas vantagens vou contar como fui visitar a Farofa de Cima, primeira cachoeira que só é possível chegar com guia que conheci na Serra. Mas antes vou te explicar como e por quê fui parar lá.


A primeira vantagem e mais óbvia delas é explorar o desconhecido. E o desconhecido, dentro daquela reserva, nunca decepciona. A cada passo e a cada rumo tomado em uma trilha distinta a paisagem se modifica, seja pela mudança de altitude, seja pela presença ou maior distância dos cursos d’água. O Parque é tomado por uma transição incrível de dois biomas, que sugerem a alternância da umidade para um clima mais seco. Ora Mata Atlântica, Ora Cerrado. Não à toa, temos ali uma das maiores biodiversidades por m² do mundo! Então, andar pelas trilhas do parque sugere que você irá, a cada curva, atravessar mundos distintos, passando por campos rupestres, densas matas úmidas, paredões de pedra, florestas de grandes árvores com troncos retorcidos… Não dá pra cansar! Bom, não no sentido emocional. O preparo físico é outra história, visto que as trilhas que fogem à rota comum são longas e permeadas de subida. Mas vale a pena, vale muito! E pra te provar isso venho com a segunda vantagem de se desviar dos atrativos mais conhecidos. Ela também é óbvia: não tem tanta gente. Ir a um lugar paradisíaco e usufruí-lo de forma particular (ou quase) te dá momentos de descanso mais intensos durante a visitação. Só de não ter pessoas passando pra lá e pra cá onde você resolveu deitar pra ouvir o barulho da cachoeira já é uma super vantagem. Tirar fotos sem os papagaios de pirata também ajuda muito nas boas memórias do passeio. E com menos gente e menos barulho você pode usufruir do que chamarei atenção na terceira e última vantagem (que trago aqui, certeza que tem mais!).


A terceira vantagem tem a ver com todas as outras: um lugar cheio de biodiversidade, com pouca gente e pouco barulho, é o local perfeito para avistar animais. Se você ama ver pássaros tem até guia especialista pra isso na Serra, em diversas trilhas! Mas o que me fez ir ao até a Farofa de Cima  foi ver postagens de um casal de onças pardas no topo de sua queda. Assim, combinei com uma grande amiga que já fora chefe de brigada, que também trabalhava como guia, e fui conhecer a outra parte da Farofa.


  Seguindo na entrada do Retiro, encontramos logo nos primeiros quilômetros o bambuzal. Pronto, ali atravessamos o rio e seguimos em frente. A primeira parte é uma trilha em campo aberto, muito quente e seca. Na verdade toda a trilha é pouco coberta de vegetação, pois a maior parte é mesmo de predominância de vegetação do cerrado,  que é arbustiva. Nesses primeiros km de trilha a gente passa por duas formações de cachoeira: Caramba e depois a "Carambinha", e aí começa a parte difícil da trilha. 


É daí que vêm os nomes das cachoeiras, pois a serra ali se chama Serra do Caramba, e nem precisa explicar né? Rs Dependendo da época de estiagem, normalmente entre junho – agosto, elas podem aparecer sem queda alguma. Mas as vezes que fui deu pra dar uma mergulhada, que foi essencial pra aguentar a trilha de eterna subida com a cuca fresca. Até ali a trilha têm muitos pequenos cursos d'água, tem até uma prainha de areia branca do lado esquerdo no descampado. Mas antes de subir a serra do caramba a gente pede ajuda pra todo tipo de santo, porque pra enfrentar aquela subida só com ajuda mesmo, rs!


Depois do mergulho, partimos por entre a escadaria de pedras. É muito bonito aquele caminho. À medida que se sobe, dá pra encontrar de km em km umas árvores com sombra pra parar pra descansar. E que descanso! Ao olhar pra trás o visual do alto é indescritível. Nunca medi, mas considero ter uns 2 km no início da trilha que é plana, mais uns 4 km de subida incansável e, após, uns 3 km de pequenas subidas e pedaços planos, por entre muitas canelas-de-ema e flores de todas as cores. Pouco antes de chegar à Cachoeira da Farofa, após as subidas maiores, a gente se depara com um brejo. Ali aprendi que é importante ter uma canga pra cobrir a cabeça ao máximo, e muito repelente. 


Camisas da Marca Kumbuka - Serra do Cipó

Ao final do brejo a gente se depara com uma janela maravilhosa que já mostra as montanhas da Farofa de Cima à frente, um céu azul com as nuvens brancas fofinhas passando e do lado direito a vista do Parque Nacional (onde encontra-se a Farofa e Cânion), da trilha e do circuito das lagoas. Dali, só mais uma voltinha e você encontra a bifurcação para uma trilha que chega ao topo da cachoeira ou embaixo  dela, onde tem a queda. De primeira fomos por cima, e é lindo! Dizem que a continuidade da trilha pós Farofa de cima resulta na Cachoeira Braúnas, um sonho que ainda não alcancei. Mas nessa chegada por cima encontra-se um poço delicioso pra banho, com árvores que fazem sombra nas pedras. Depois de tanto caminhar no sol, aquele oásis é ideal pra parar um pouco, comer um lanche e se refrescar muito!


Olhando de cima da queda é possível ver muitas montanhas bem ao longe, e perceber o quanto ela é alta. A formação das pedras cortadas e voltadas para cima é muito interessante e sugerem mesmo uma estrutura de fundo do mar, como explicam os pesquisadores. Não nos demoramos muito ali e logo descemos. Dependendo da hora a cachoeira já pode estar bem sombreada, então descobri que o ideal é ir primeiro na parte de baixo, porque depois, por ter ali uma pequena mata densa de árvores altas (com maior semelhança com mata atlântica), o lugar fica bem úmido e frio. A queda se desmonta em uma pedra muito alta, e escorrega até o poço, à esquerda da Pedra. O poço parece uma panela de pedra cheia de água, é super interessante. A água é muito escura nessa parte e eu particularmente não fiquei muito à vontade para entrar (nas vezes que voltei fiquei mais em cima mesmo rs). 


Poço abaixo da cachoeira da Farofa de Cima

Ao voltar, exploramos o curso debaixo do rio e descobrimos muitos outros poços banháveis e até uma fenda que tornava a vista da entrada principal do parque muito nítida. Ali parecia realmente que estávamos bem em cima da Cachoeira da Farofa, mas estava tarde e voltamos pro pedaço principal da trilha pra voltar à portaria, que fecha às 17. Infelizmente em minhas incursões na Farofa de cima não avistei nenhum indivíduo da mastofauna (grandes mamíferos), mas já nos deparamos com um fresco e colorido cocô de lobo-guará, cheio de frutinhas no meio rs. Os relatos desses animais (onças e lobos) são muito frequentes e ainda tenho esperança de cruzar com esses seres encantadores nesse lugar lindo que eu amo, e logo logo tô de volta! E sim, se nesse relato você conseguiu visualizar a beleza e a delícia desse lugar, conseguiu entender que vale mesmo a pena tanta subida, né? E não se esqueça, o texto não dá indicações precisas de como chegar ao lugar, é muito importante que contrate um guia, ele não só vai te levar até esse paraíso pouco visitado como também vai te dar muitas informações preciosas sobre as plantas e história do lugar! Até a próxima!

 

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