O Sabor do Cerrado Uma Jornada pelo Pequi na Serra do Cipó
- Dicas na Serra do Cipó
- 5 de fev.
- 10 min de leitura

Introdução – O Fruto que Conta Histórias
O cheiro do pequi não pede licença. Ele chega antes de tudo, inunda o ambiente, se mistura ao ar e se aloja na memória. Para quem nunca sentiu, é difícil descrever: algo entre terra molhada depois da chuva, madeira quente ao sol e um toque de especiaria que não se encontra em nenhum outro lugar. Para quem conhece, é um chamado. Um aviso de que a safra começou, de que é hora de sair pelas trilhas, de se abaixar para pegar os frutos caídos, de encher balaios e sacolas, de separar os melhores para o arroz, o licor, o mousse, o pão de queijo.
Na Serra do Cipó, o pequi é bem como uma estação do ano, uma lembrança de infância, um encontro entre amigos. Não se trata apenas do sabor forte e marcante, nem dos espinhos ocultos que surpreendem os desavisados. O pequi é a identidade de um povo, um elo invisível entre a terra e as mãos que o colhem.
Quando a safra começa, tudo muda. Nas feiras, sacos cheios de pequenos orbes dourados aparecem de repente. As cozinhas ganham um perfume inconfundível. As conversas se voltam para as receitas: "Já experimentou o licor do Júlio Code este ano?", "Dona Geni está fazendo aquela mousse delicioso de novo!", "O arroz com pequi do Geraldo Magela da Grande Pedreira é melhor que nunca."
O que quero contar aqui é bem simples; é sobre o pequi como fruto ou sobre sua importância para o Cerrado e mais ainda; quero falar sobre pessoas. Sobre aqueles que, sem grandes pretensões, transformam o pequi em algo ainda maior – um símbolo de afeto, de memória e de pertencimento. Quero que este texto tenha sabor, que cada palavra carregue um pouco desse cheiro amadeirado, que cada frase traga consigo o calor de uma cozinha onde o pequi borbulha na panela.
Aqui, nesta terra de cachoeiras e montanhas, o pequi é um convite. E eu te convido a entrar nessa história.

O Pequi na Serra do Cipó – Entre a Terra e o Céu
Quem anda pelas trilhas da Serra do Cipó sabe: o pequizeiro está sempre por perto, mesmo quando não se percebe à primeira vista. Seus galhos retorcidos e sua copa generosamente se misturam à vegetação resistente do Cerrado, adaptada ao clima seco e às chuvas imprevisíveis. No chão, entre folhas e pedras, os frutos caídos, rapidamente denunciam a chegada da estação.
Aqui, o pequi não precisa ser plantado. Ele nasceu onde quis, onde sempre nasceu, como se conhecesse o caminho certo para continuar existindo. As chuvas chegam, e os pequizeiros acordam. As flores brancas e amareladas surgem primeiro, tímidas, mas cheias de promessas. Depois, vem o fruto, embalado pelo tempo, amadurecendo no calor do sol, até o momento exato de amadurecer e cair.
A colheita não é um evento marcado no calendário, mas um conhecimento passado de geração em geração. Os moradores sabem exatamente quando saem pelas trilhas para encontrar os melhores frutos. Não se colhe pequi no pé – espera-se que ele caia sozinho, em um gesto de respeito à árvore e à terra. Os primeiros caídos são comemorados: um anúncio de que o tempo do pequi chegou.
É nessa época que as cozinhas começam a se transformar. O arroz branco comum dá lugar ao amarelo intenso do pequi, tingido pelo óleo rico do fruto. A pimenta curtida em pequi aparece nas mesas dos bares, restaurantes e nas casas dos mais aficionados pelo fruto. O licor artesanal começa a ser preparado, guardado em garrafas que, mais tarde, vão carregar o gosto doce e marcante do Cerrado.
Mas antes de mais nada, vem o cuidado. Quem conhece o pequi sabe que ele não é um fruto qualquer. Por dentro, além da polpa macia e perfumada, ele guarda espinhos finíssimos, prontos para pegar os desprevenidos. Comer pequi exige paciência e respeito – raspar a polpa com os dentes, sem nunca mordê-lo. Um ritual que ensina sobre tempo, sobre limites e sobre tradição.
A Serra do Cipó, com suas cachoeiras e trilhas que cortam as montanhas, guarda muitos tesouros. Mas poucos são tão vivos, tão intensos e tão profundamente ligados às pessoas quanto o pequi. E é por isso que cada safra traz consigo os frutos, mas também as histórias. Histórias de quem vive, cozinha e compartilha o sabor do Cerrado.
Sabores que Contam Histórias – O Pequi na Vida das Pessoas
O pequi é uma lembrança, uma herança, um segredo passado de mãos calejadas para panelas fumegantes. Quem vive na Serra do Cipó sabe que o pequi é uma parte importante do dia a dia, da cultura, da identidade. E cada pessoa que faz algo com ele, faz do seu jeito, imprimindo no fruto sua história, seu tempo e seu afeto.

O Arroz com Pequi de Geraldo Magela – Um Prato que Carrega o Cerrado
Se existe um prato que resume o Cerrado, é o arroz com pequi. Simples, direto, marcante. Mas se existe alguém que transforma essa simplicidade em arte, é o Geraldo Magela, da Pousada Grande Pedreira.
Geraldo não é chef de cozinha, nem está comandando um restaurante. Ele aprendeu a cozinhar porque gostava, porque cresceu vendo a mãe, Dona Preta preparar os melhores pratos para a família e também para seus clientes no restaurante que leva seu próprio nome. Geraldo aprendeu porque achava que uma boa refeição podia ser uma forma de aconchego. E, entre todas as receitas que aprendeu, o arroz com pequi se tornou sua assinatura.
Nos períodos de safra, saímos juntos, eu e Vera Lucia (Esposa do Geraldo) e Frida (Dog da Pousada); para coletar os frutos em uma fazenda próxima. O cheiro do pequi maduro no chão, misturado ao aroma de terra úmida, já é um prenúncio do que está por vir. Depois de colhidos, os frutos descansam até que a casca fique no ponto certo para ser retirada. A polpa dourada, brilhante de óleo natural, é colocada na panela junto com o arroz, sem pressa, sem segredos – apenas fogo baixo, paciência e uma boa conversa enquanto o cheiro começa a tomar conta da cozinha.
O arroz fica amarelo, intenso, perfumado. Cada grão carrega um pouco do Cerrado, do tempo que o pequi levou para amadurecer, do respeito de quem soube esperar o momento certo para colhê-lo. Quem experimenta, sente mais do que o sabor: sente a história que ele carrega.

O Mousse e os Licores de Dona Geni – Doçura e Tradição
Na Praça Central da Serra do Cipó, Dona Geni é um nome conhecido. Nativa da região, dona de uma lojinha simples onde vende cachorro-quente com molhos especiais, ela tem um talento que vai além do que se espera de um ponto de lanche: seus licores e doces de pequi.
O licor de pequi de Dona Geni tem um sabor que ninguém esquece. É doce, mas não enjoativo. Forte, mas equilibrado. Cada gole traz um pouco da terra, da fruta madura, do tempo que passou entre a colheita e o descanso da bebida até alcançar o ponto ideal. Mas o que mais surpreende é o mousse de pequi, uma sobremesa delicada que ela prepara com carinho e paciência.
A textura é leve, mas o sabor é intenso. Não há nada parecido. É um doce que respeita a identidade do pequi, que não esconde sua força, mas a transforma em um abraço. Quem prova uma vez, volta. Quem conhece Dona Geni, sabe que ali não se vende apenas comida – se vende memória, afeto e tradição.

A Pimenta de Pequi do Julio Code – Fogo e Sabor
Eu, Julio Code sou muitas coisas; entre estas coisas um apaixonado pelo pequi. Gosto de equilibrar intensidade e sabor nos preparos de pequi. Dentre todas as experimentações a pimenta curtida no pequi é a que mais me agrada.
O pequi já tem um gosto forte por si só. A pimenta, então, é uma adição arriscada – um toque a mais poderia se tornar excessivo. A pimenta curtida no pequi tem o equilíbrio perfeito entre a "picância" ardida e o fundo levemente adocicado da fruta. Vai bem com carne, com arroz, com feijão tropeiro, com quase tudo que se coloca à mesa.
Para mim, cozinhar é mais do que alimentar – é oferecer uma experiência. E a pimenta de pequi é um baita tempero: é uma marca, um sinal de que o Cerrado pode ser picante, pode ser intenso, mas nunca deixa de ser saboroso.

O Pão de Queijo com Pequi da Dona Marinalva – A Simplicidade que Encanta
Em São José da Serra, no café da manhã da Pousada da Várzea, há um quitute que surpreende qualquer visitante: o pão de queijo com pequi da Dona Marinalva.
Ela não aprendeu a receita em livros nem em cursos. Foi experimentando, testando, ouvindo quem provava. O resultado? Um pão de queijo que carrega o Cerrado na massa, com um toque suave de pequi que aparece no fim da mordida, como um segredo bem guardado.
Dona Marinalva não faz propaganda. Ela apenas serve o que sabe fazer de melhor. Mas quem come, fala. Quem fala, traz outros. E assim, seu pão de queijo de pequi se torna quase uma lenda local, um daqueles sabores que se tornam parte da história de quem passa pela Serra do Cipó.
Essas são as histórias das pessoas que fazem do pequi algo maior do que um fruto. Gente que cozinha e que celebra. Que não apenas colhe, mas respeita. Que transforma um simples ingrediente em uma experiência, em um pedaço da identidade do Cerrado.
E é por isso que o pequi é tradição, é memória, é sabor.

Cerrado, Tradição e Futuro – O Pequi como Símbolo de Resistência
A Serra do Cipó, como grande parte do Cerrado, vive um paradoxo: é um território de riquezas naturais, culturais e gastronômicas, mas também um espaço de ameaças constantes. O pequi, que há séculos faz parte da identidade local, enfrenta desafios que podem comprometer seu futuro – desmatamento, queimadas, exploração predatória e até o esquecimento.
O Cerrado tem fama de ser resistente. De fato, sua vegetação retorcida, suas raízes profundas e sua capacidade de sobreviver a longos períodos de seca fazem dele um bioma que se adapta e se renova. Mas até mesmo a resistência tem um limite.
O avanço da agropecuária e das monoculturas vem diminuindo significativamente na área de Cerrado nativo. Onde antes havia pequizeiros centenários, hoje há pastagens, condomínios e lavouras. Cada árvore derrubada é uma perda irreparável para o meio ambiente e para as comunidades que dependem do extrativismo sustentável.
E há também o fogo – às vezes natural, parte do ciclo do Cerrado, mas muitas vezes crime, causado por ações humanas irresponsáveis. Os incêndios destroem árvores e toda a fauna que depende delas. Pequizeiros jovens não resistem às queimadas repetidas, e o solo empobrecido torna cada vez mais difícil sua regeneração.
A questão não é apenas ecológica. É também cultural. Porque o pequi não é só uma árvore. Ele é um símbolo de um modo de vida que corre o risco de desaparecer.

Pequi e o Turismo Sustentável – Uma Alternativa para o Futuro
Mas nem tudo é ameaçado. Nos últimos anos, o turismo sustentável tem surgido como um caminho viável para a preservação do Cerrado e para a valorização da cultura do pequi.
Na Serra do Cipó, a safra do pequi já movimenta uma economia local de forma espontânea. Mas e se ela fosse transformada em um atrativo turístico estruturado?
Imagina um festival anual do pequi, como antes havia na região; reunindo os produtores, os cozinheiros, os artesãos que trabalham com o fruto? Um evento onde os turistas conseguiriam provar as delícias do pequi, mas também aprender sobre a sua importância ecológica, sobre as técnicas de colheita sustentável, sobre a tradição por trás de cada receita.
Ou roteiros gastronômicos que levam os visitantes para vivências reais – conhecer o arroz com pequi do Geraldo Magela, provar o mousse da Dona Geni, aprender a fazer licor artesanal, sentir o cheiro da pimenta de pequi.
O turismo gastronômico, quando bem feito, gera renda para a comunidade, mas também cria um motivo concreto para a preservação. Porque ninguém derruba uma árvore que pode ser fonte de sustento.

Valorização do Pequi – O que falta para Ele Ser um Produto de Prestígio?
O pequi já tem seu lugar na mesa de quem vive no Cerrado, mas ainda é pouco conhecido fora dessa região. Ao contrário de outros frutos nativos que conquistaram o mercado nacional e até internacional, o pequi ainda é visto como um ingrediente exótico, restrito a poucos paladares.
Mas e se ele ganhasse o status que merece? Se chefs renomados explorarem mais suas possibilidades, se houver incentivos para a produção sustentável, se mais pessoas entenderem que o pequi não é apenas um fruto com gosto forte – ele é uma identidade?
A valorização do pequi não depende apenas da sua preservação ambiental, mas também do seu reconhecimento como um produto cultural. precisamos falar mais sobre ele. Conte suas histórias. Crie experiências gastronômicas e culturais que tornem o pequi um símbolo do Cerrado, não só para quem vive nele, mas para todo o Brasil.

O Papel das Comunidades Locais – Guardiões do Pequi
No fim das contas, quem protege o pequi são as pessoas que dependem dele no seu periodo.
São os moradores da Serra do Cipó, que conhecem as trilhas onde os pequizeiros crescem. São os pequenos produtores, que respeitam o ritmo da árvore. São os cozinheiros, que transformam o fruto em sabor e memória. São os turistas e visitantes, que levam a experiência do pequi para além da região e ajudam a contar sua história.
Proteger o pequi é impedir o desmatamento. É garantir que ele continue fazendo parte da vida de quem vive aqui. É cultivar a tradição, valorizar os saberes locais, criar oportunidades para que o fruto continue a ser um elo entre o Cerrado e as pessoas.
Porque, no fim das contas, o pequi é o Cerrado pulsando, resistindo, contando sua história em cada safra, em cada aroma que se espalha pela cozinha, em cada prato compartilhado ao redor da mesa.
Quando o primeiro pequi cai no chão, começa uma nova safra. E junto com ela, começam novas histórias.
O Cerrado segue seu ritmo, a natureza cumpre seu ciclo, mas a pergunta que fica é: estaremos aqui para contar essas histórias no futuro?
Se cuidarmos do pequi, do pequizeiro, do Cerrado, a resposta será sim. Se valorizarmos o que ele representa – sabor, tradição, identidade – a resposta será sim. Se entendermos que cada fruto que cai é mais do que só o alimento – é cultura, é memória, é vida – a resposta será sim.
E assim, ano após ano, safra após safra, o Cerrado seguirá vivo em cada gole de licor, em cada garfada de arroz, em cada mordida de pão de queijo.
Porque o pequi não é apenas um fruto. Ele é a alma do Cerrado.
Incrível este texto....você contextualizou este fruto precioso como ele merece....Árvores de Pequi são entidades do Cerrado que merecem nosso respeito e Preservação....Nunca deveriam ser cortadas ,levam centenas de anos para atingir o tamanho e abundância em dar frutos....Dele tudo se aproveita ,sua polpa,suaccastanha protegida por espinhos guardiões....
Salve o Pequi ....